Grande Hotel da Beira – Hotel Abandonado
- Thais Riotto
- há 1 dia
- 3 min de leitura
Local: Moçambique

Erguido como um monumento à ambição colonial, o Grande Hotel da Beira nasceu no início da década de 1950 como parte do ousado plano urbano da Ponta Gêa. Sua concepção teve início ainda nos anos 30, arquitetada inicialmente por José Porto, do Gabinete de Urbanização Colonial, e mais tarde concluída por Francisco de Castro, que trouxe os detalhes finais ao projeto.
A construção avançou a partir de 1949 e culminou em uma cerimônia de inauguração realizada em 16 de julho de 1955, após investimentos que alcançaram cerca de 90 milhões de escudos portugueses, uma soma extraordinária para a época.
O empreendimento abriu as portas como um hotel de luxo, oferecendo cerca de 122 quartos, piscina olímpica, restaurante sofisticado, boate, cinema e um vasto foyer marcado por escadarias imponentes.
Criado para impressionar, o edifício buscava simbolizar o orgulho colonial e atrair o turismo de elite. No entanto, desde o início enfrentou dificuldades financeiras. Embora grandioso, nunca alcançou ocupação suficiente para justificar seus custos. Em 1963, menos de uma década após sua inauguração, encerrou suas atividades como hotel, embora a piscina e alguns espaços tenham continuado a ser usados esporadicamente para eventos.
Com a independência de Moçambique, em 1975, o hotel passou a servir como base militar e sede de diferentes órgãos estatais.
A guerra civil que se iniciou em 1977 transformou o prédio em abrigo para refugiados vindos do interior do país. Ao longo dos anos, quase tudo o que pudesse ser removido foi levado, desde elevadores até vidraças, cabos elétricos, pisos de madeira e parte das estruturas internas.
A arquitetura original permanece evidente em seus contornos, ainda que deteriorada. O edifício combina elementos do Art Déco com o modernismo colonial, revelando linhas horizontais marcantes, varandas contínuas, brises que filtravam o sol e longas fachadas em concreto armado, tecnologia considerada moderna para o período.
Seus blocos volumosos, ligados por corredores envidraçados e organizados em torno de um volume curvo central, buscavam favorecer ventilação natural e criar ambientes amplos e iluminados.
Hoje, a grandeza estrutural convive com a precariedade. O hotel, há décadas abandonado, tornou-se lar para uma população estimada entre três e quatro mil pessoas.
Famílias transformaram antigos salões e quartos em compartimentos improvisados com panos, tábuas e divisórias frágeis, criando pequenas “casas” dentro do enorme esqueleto de concreto. Formaram-se comunidades internas, algumas com representantes que organizam tarefas básicas como segurança ou acesso à água.
A infraestrutura, porém, é inexistente. Não há eletricidade, tubulações funcionais ou saneamento. Restam apenas os poços dos antigos elevadores e corredores escuros marcados por infiltração e concreto exposto.
O piso que já foi de madeira desapareceu quase por completo, transformado em lenha ao longo dos anos. A piscina olímpica, um dos símbolos de luxo do passado, continua lá, agora usada para lavar roupas ou outras atividades cotidianas dos moradores.
O edifício, visto de fora, tornou-se um bloco massivo de paredes escurecidas pela ação do tempo e pela fumaça das fogueiras internas.
O contraste entre a arquitetura elegante e a decadência atual transformou o hotel em símbolo profundo da trajetória recente de Moçambique. Desde a opulência colonial, passando pelo abandono pós-independência, até a função de abrigo improvisado, o Grande Hotel da Beira é hoje mais do que uma ruína; é um organismo vivo, habitado, contraditório e carregado de significados sociais.
Documentários, reportagens e ensaios fotográficos vêm registrando essa transformação contínua, atraindo o olhar de arquitetos, urbanistas, historiadores e repórteres do mundo inteiro. Ainda assim, o futuro do edifício permanece incerto. Planos governamentais para reassentar seus moradores ou restaurar a estrutura surgem ocasionalmente, mas nunca avançam.
Assim, o Grande Hotel segue em pé, monumental e ferido, reflexo de camadas de história que o tempo insiste em não apagar.






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