O Chamado das Profundezas - Ecos do Abismo: Realidade ou Ficção?
- Thais Riotto
- há 7 horas
- 4 min de leitura
Especial Sexta-Feira 13!!

O oceano cobre aproximadamente 70% da superfície da Terra, uma imensidão azul que, por milênios, permaneceu inalcançável e incompreensível. Antes da oceanografia moderna, mapas terminavam em bordas incertas, onde se inscrevia: hic sunt dracones, “aqui habitam os dragões”.
O mar profundo sempre representou o desconhecido absoluto. Escuro, silencioso e aparentemente infinito, tornou-se o palco perfeito para o nascimento de mitos.
Civilizações costeiras e povos navegadores projetaram nas águas seus medos, sua espiritualidade e sua necessidade de explicar o inexplicável. Assim nasceram criaturas colossais, espíritos vingativos e monstros que guardavam os segredos do abismo.
Cada cultura criou seus próprios seres marinhos lendários, alguns símbolos do caos, outros guardiões espirituais, todos refletindo a relação humana com a vastidão oceânica.
Kraken — O Gigante dos Mares do Norte
Entre as criaturas mais emblemáticas da mitologia marinha está o Kraken, oriundo do folclore escandinavo.
Descrito como um ser de proporções descomunais, com tentáculos capazes de envolver e arrastar navios inteiros para o fundo do mar, o Kraken era temido pelos marinheiros dos mares do Norte.
Alguns relatos afirmavam que sua extensão era tão grande que poderia ser confundido com uma ilha, rochosa e aparentemente segura, até o momento em que emergia, revelando sua verdadeira natureza.
Seu mito possivelmente nasceu de avistamentos raros da lula gigante real, a Architeuthis dux, um cefalópode de grandes dimensões que habita profundidades extremas.
A fronteira entre o relato fantástico e o fenômeno natural talvez nunca seja completamente definida, e é justamente essa incerteza que sustenta o mistério.
Leviatã — O Caos Primordial das Escrituras
Nas tradições hebraicas, surge o imponente Leviathan, descrito nos livros bíblicos de Jó e Isaías.
O Leviatã é retratado como uma serpente marinha colossal ou criatura monstruosa que personifica o caos primordial. Mais do que um simples monstro, ele simboliza forças indomáveis da natureza, aquilo que escapa ao controle humano.
Ao longo da história, o termo “leviatã” passou a representar qualquer criatura marítima gigantesca e ameaçadora.
Ele não é apenas uma entidade mitológica, mas um arquétipo do poder incontrolável do oceano profundo.
Umibōzu — O Espírito Invisível do Mar Japonês
No folclore japonês, encontra-se o enigmático Umibōzu.
Diferente dos monstros físicos e tangíveis, o Umibōzu é um espírito marinho que surge repentinamente em mares calmos.
Geralmente descrito como uma figura negra e gigantesca que emerge das águas, ele pode atacar embarcações ou exigir oferendas, como um barril sem fundo, antes de desaparecer na escuridão.
Ele representa o medo do inesperado. O mar pode estar sereno, mas a ameaça invisível pode estar logo abaixo da superfície.
Aspidochelone — A Ilha que Não Era Ilha
Nos bestiários medievais e no antigo texto cristão “Physiologus”, aparece o Aspidochelone.
Essa criatura colossal era descrita como uma tartaruga ou baleia gigantesca, cujo dorso se assemelhava a uma ilha coberta de areia e vegetação.
Marinheiros desavisados ancoravam sobre ela, acendiam fogueiras, até que o monstro submergia, levando embarcação e tripulação ao fundo.
Mais do que uma narrativa fantástica, a história da Aspidochelone carrega um simbolismo claro: a ilusão do falso porto seguro. Nem tudo que parece firme é confiável, principalmente no mar.
Sazae-oni — A Transformação Sombria
Outra figura intrigante do Japão é o Sazae-oni.
A lenda descreve um molusco que, ao atingir idade avançada, transforma-se em uma criatura demoníaca capaz de enganar humanos.
Algumas histórias narram encontros com piratas, nos quais o ser barganhava por partes do corpo humano em troca de ouro.
É uma narrativa sobre metamorfose, engano e as consequências da ganância, uma moralidade oculta sob a aparência monstruosa.
Lusca — O Terror dos Buracos Azuis
No Caribe e nas Bahamas, fala-se da Lusca, criatura híbrida que combinaria características de polvo ou lula gigante com tubarão.
Ela habitaria os blue holes, profundos sistemas submersos que parecem conduzir a um vazio sem fim. Embora não existam evidências científicas, relatos persistem, alimentando o imaginário coletivo.
Como muitos mitos oceânicos, a Lusca vive na intersecção entre geografia real e imaginação cultural.
O Brasil e Seus Mistérios Aquáticos
Embora o folclore brasileiro seja mais associado a águas doces do que ao oceano profundo, o país também abriga narrativas poderosas ligadas ao universo aquático.
Boiuna — A Cobra-Grande da Amazônia
A Boiuna, também conhecida como Cobra-Grande, é uma entidade das águas amazônicas.
Descrita como uma serpente colossal, ela pode assumir diferentes formas, como uma canoa, um barco ou até uma mulher.
Diz-se que controla as correntes e pode arrastar embarcações para o fundo, especialmente quando navegadores desrespeitam os espíritos da floresta e das águas.
É uma figura que representa o poder espiritual da natureza amazônica.
Minhocão — O Gigante Subterrâneo
O Minhocão aparece em relatos do século XIX como um enorme verme ou peixe subterrâneo que abriria sulcos profundos na terra e consumiria animais.
Embora associado principalmente a rios e áreas alagadas, ele integra o imaginário brasileiro sobre criaturas ocultas sob a superfície, seres invisíveis que moldam a paisagem de forma silenciosa.
Sereias e o Encanto Fatal
Em diversas culturas, surgem as sereias, figuras híbridas que combinam beleza e perigo. Na mitologia grega, seu canto atraía marinheiros para a morte.
Elas simbolizam o fascínio pelo desconhecido e a sedução das profundezas.
O mar não é apenas ameaça bruta, é também encanto, promessa e mistério.
O Mar Como Arquétipo Universal
As criaturas lendárias do fundo do mar revelam um padrão comum entre culturas distantes: o oceano como símbolo do desconhecido, do caos, do poder espiritual e da transformação.
Do norte gelado da Escandinávia à floresta amazônica brasileira, passando pelo Japão e pelo Caribe, o ser humano projetou nas águas profundas aquilo que não podia explicar, e aquilo que temia enfrentar.
Mesmo na era da tecnologia e da exploração submarina, mais de 80% do oceano ainda permanece inexplorado. Talvez por isso essas lendas continuem vivas.
Porque, no fundo, ainda não sabemos o que realmente habita o abismo.




Comentários