Chakra - O começo
- Thais Riotto
- há 7 horas
- 4 min de leitura

1. O princípio da “roda”: onde tudo começa
A palavra chakra nasce do sânscrito cakra, cujo significado literal é “roda” ou “disco”. Essa imagem não é metafórica por acaso: nas tradições indianas, os chakras são descritos como vórtices giratórios de energia, centros sutis que organizam a força vital no corpo humano. Eles não são órgãos físicos, mas estruturas pertencentes ao que as filosofias do yoga e do tantra chamam de corpo sutil (sūkṣma śarīra).
A concepção desses centros aparece no contexto do hinduísmo tântrico, particularmente em tradições esotéricas ligadas à prática de meditação, visualização e despertar espiritual.
Não se trata de um sistema originalmente voltado à “cura energética” no sentido moderno, mas de um mapa de consciência, um diagrama interior que descreve o caminho da energia kundalini ao longo do eixo da coluna.
2. Os textos que estruturaram o sistema
Os primeiros registros mais sistematizados sobre chakras surgem em textos medievais do tantra. Entre os mais relevantes estão:
Shaṭ‑Cakra‑Nirūpaṇa – tratado que descreve seis centros principais ao longo da coluna e detalha símbolos, pétalas, mantras e divindades associadas.
Kubjikamata Tantra – texto esotérico que também aborda centros energéticos e práticas internas.
Paduka-Pañcaka – hino que complementa descrições do sistema energético.
É importante destacar um ponto frequentemente ignorado: os textos tradicionais nem sempre falavam em “sete” chakras. Muitos descreviam seis principais, com o centro coronário sendo tratado como um estado transcendental além da estrutura ordinária.
O sistema padronizado de sete chakras principais é uma consolidação posterior.
3. A travessia para o Ocidente
No final do século XIX e início do século XX, o interesse europeu por filosofias indianas cresceu intensamente. Foi nesse contexto que o jurista e estudioso britânico Sir John Woodroffe, escrevendo sob o pseudônimo Arthur Avalon, publicou em 1918 o livro The Serpent Power.
Essa obra traduziu e comentou o Shaṭ-Cakra-Nirūpaṇa, tornando o sistema acessível ao público ocidental. A partir daí, os chakras passaram a ser reinterpretados sob lentes esotéricas, psicológicas e até anatômicas, sendo correlacionados a plexos nervosos e, posteriormente, às glândulas endócrinas.
Poucos anos depois, em 1927, o teosofista Charles Webster Leadbeater publicou The Chakras, obra decisiva para a associação moderna entre chakras e cores específicas. É aqui que começa a configuração cromática como conhecemos hoje.
4. A origem das cores: tradição antiga ou construção moderna?
Um ponto crucial: os textos tântricos originais descreviam símbolos, elementos, sons sagrados e divindades, mas não apresentavam de forma sistemática a correspondência com as sete cores do arco-íris como é ensinada atualmente.
A associação cromática consolidou-se no Ocidente, especialmente dentro da Sociedade Teosófica, que integrava conceitos de vibração, espectro luminoso e evolução espiritual. A lógica estabelecida foi a seguinte:
A energia vibra.
A luz é vibração.
Cada cor possui um comprimento de onda específico.
Portanto, cada chakra pode ser correlacionado a uma faixa do espectro visível.
Assim nasceu a sequência que vai do vermelho (menor frequência visível, mais densa) ao violeta (maior frequência visível, mais sutil).
5. O espectro da consciência: os 7 chakras e suas cores
A padronização moderna organiza os chakras como uma ascensão vibracional ao longo da coluna vertebral até o topo da cabeça.
1️⃣ Muladhara – Vermelho
Localizado na base da coluna.
O vermelho simboliza densidade, matéria, sobrevivência e estabilidade. Está ligado à segurança física e à base estrutural da vida.
2️⃣ Svadhishthana – Laranja
Situado na região pélvica.
O laranja carrega a vibração da criatividade, da sexualidade e da fluidez emocional.
3️⃣ Manipura – Amarelo
Região do plexo solar.
O amarelo representa poder pessoal, identidade, autodeterminação e ação consciente.
4️⃣ Anahata – Verde (ou rosa)
Centro do peito.
O verde, cor do equilíbrio no espectro, simboliza harmonia e amor. Algumas correntes utilizam o rosa como frequência complementar do amor incondicional.
5️⃣ Vishuddha – Azul
Na garganta.
O azul expressa comunicação, verdade e clareza vibracional.
6️⃣ Ajna – Índigo
Entre as sobrancelhas.
O índigo associa-se à percepção interior, intuição e consciência expandida.
7️⃣ Sahasrara – Violeta ou Branco
Topo da cabeça.
O violeta (ou branco, como síntese de todas as cores) simboliza transcendência e integração com o absoluto.
A sequência segue exatamente a ordem do arco-íris, uma progressão simbólica da densidade à sutileza.
6. Estrutura simbólica além das cores
Cada chakra, nas descrições tradicionais, possui:
Número específico de pétalas de lótus
Mantra semente (bija mantra)
Elemento da natureza
Divindades associadas
Geometria simbólica
As correspondências com glândulas, notas musicais, arquétipos psicológicos e cristais são desenvolvimentos posteriores, principalmente difundidos no movimento New Age das décadas de 1970 e 1980.
7. Síntese histórica e filosófica
Organizando cronologicamente:
Textos tântricos medievais descrevem centros sutis de energia.
O sistema de sete chakras consolida-se gradualmente.
No início do século XX, traduções e interpretações ocidentais popularizam o modelo.
A associação às cores do arco-íris surge em ambientes teosóficos.
O século XX amplia o sistema para abordagens terapêuticas, psicológicas e holísticas.
Mais do que um esquema colorido, o sistema dos chakras é um mapa simbólico da evolução humana. Ele descreve a jornada da consciência:
da sobrevivência
ao prazer
ao poder
ao amor
à expressão
à percepção
à transcendência
As cores funcionam como linguagem visual dessa ascensão vibracional.
Não são meramente decorativas, são códigos simbólicos que ajudam a mente a organizar experiências internas.






Comentários